Da ofensa

Você, leitor fiel que acompanha meu blog há tempos, provavelmente reparou que eu não venho escrevendo muito por aqui. Afinal de contas, se você é meu leitor mesmo, provavelmente nós já conversamos sobre isso, porque vamos encarar a realidade: só quem me conhece e fala comigo no msn deve passar por aqui, uma vez que divulgação nunca foi o meu forte. Mas divago, este não é o assunto do post de hoje -- que pode ser o post de hoje, da semana, do mês, e até, do trimestre, a depender da falta de inspiração que me acomete; não repare, ainda divago.

Para chegar ao assunto desta postagem, devo dizer que eu ando enfastiado de internet, principalmente no que tange à interação online depender da minha argumentação. E devo dizer que tudo isso é culpa da terra prometido dos idiotas, energúmenos e analfabetos funcionais, aquele sítio da desgraça cujo nome nós conhecemos por Orkut. O leitor malandro, que já dominou o meu estilo, provavelmente já entendeu que argumentação e idiota de Orkut são termos excludentes, e mais provavelmente nem terminará de ler este parágrafo, porque sabe que eu aconselharei a quem já entendeu o que se passa pular o próximo parágrafo, onde eu explico melhor a situação para quem não está a par dela. Pois bem, é isso mesmo.

Enfim, leitor tolo e esperançoso de encontrar informação relevante neste parágrafo, parece impossível -- eu mesmo nunca havia pensado nesta possibilidade até tempos recentes --, mas é necessário um certo grau de inteligência, perspicácia, experiência, repertório, ou simancol para perceber que um argumento acachapante destruiu sua linha de argumentação e as suas únicas opções são deitar com os quatro membros para cima, oferecendo seu pescoço desprotegido, enquanto esganiça um choro de perdão; ou cometer harakiri. Pois bem, meu leitor. Se você, como eu, adentrou no orkut em seus primórdios, sabe que a interação baseada na escrita simplesmente filtrava o pessoal que não considera esta ferramenta exatamente uma utilidade. Os poucos infelizes que passavam pelo filtro da escrita simplesmente se tornavam figuras folclóricas conhecidas em um ou mais círculos sociais virtuais, e geralmente eram tolerados até a hora que a graça de seu pobre desempenho se esvaía pela repetição das ogrices, quando então o dono (ainda não havia mediadores) excluía o indivíduo da comunidade.

Perdão, meu leitor malandro, o parágrafo anterior não saiu exatamente como eu planejei. É aconselhável que você pule este também. Pois bem, o que acontece, de uns tempos pra cá, é que a interação baseada na escrita não funciona mais como filtro. Um número muito grande de analfabetos funcionais invadiu as comunidades em que eu me divertia exercitando minha capacidade de argumentação em embates retóricos desnecessários e infinitos, e expulsou os membros que se divertiam com essas futilidades como estilo ou sentido. De uma hora para a outra, o insight, a perspicácia, a lábia, a ironia perderam sua força tal qual fosse impossível queimar alguém que não soubesse o que é o fogo. A repetição de um trecho seguida de um número entre colchetes, o vomitório de adjetivos, o senso comum, a auto-afirmação mascarada de indiferença, tudo isso ganhou força pela única vantagem que os idiotas têm e sempre terão sobre nós: a vantagem numérica.

E onde eu quero chegar?, perguntam-se leitor experiente e leitor ingênuo, ambos impacientes -- e com razão, eu diria. Ora, que isto é muito mais ofensivo que "seu lugar é chupando pica suja de traveco". É muita energia gasta organizando o seu texto, escolhendo o vocabulário para o tornar aprazível, são insights criativos que poucos teriam, o texto opositor é tão obviamente cheio de falhas que é por demais ofensivo o uso de qualquer um dos artifícios citados acima. Se tal empenho não merece a vitória numa contenda, merece ao menos que seja derrotado por esforço e ou criatividade pares aos empregados. Portanto, leitor, é mais que compreensível -- além, mais que aconselhável: é imprescindível que você responda com uma ofensa de sua preferência a tal disparate.

Não só pelo dever moral, mas principalmente porque é a única coisa que o interlocutor estapafúrdio -- não se enganem, logo ele será o medíocre da internet, e não nós (para onde nossos ídolos correrão?) -- chega perto de entender. Aliás, infelizmente é preciso dar esta dica: sim, até na ofensa, você precisa tomar o cuidado de o dar a chance de perceber que seu texto é ofensivo. Se você, como eu, leitor, por vezes se esforça para que até a sua escrita superior seja uma ofensa, muito cuidado. Mais vale adicionar um "e, portanto, eu comi aquela velha gorda da sua mãe", para ter certeza de que o objetivo será atingido com sucesso. A graça disso? Você verá os seus debatedores falharem tanto em construir frases tão espertas quanto as suas, quanto em realmente lhe ofenderem.

Mas ajuda ter o botão banir membro a seu favor, pra quando você enjoar.

4 comentários:

Quéroul disse...

eu achei seu texto maravilhoso!
incrível!
incontestável!
perfeito!
brilhante!

mas estou sem tempo, volto depois para elaborar melhor.

Quéroul disse...

UP!

Lucas disse...

^

Hahahaha

Ah:

[2]

très julie disse...

embora não seja praticante do esporte "brigando na internet", compreendo você e compartilho da falta de paciência com relação a gente que não sabe os princípios básicos da argumentação.
porque nem tudo é para ser piadinha e/ou superficial.
e fico deveras feliz que o senhor voltou a postar por aqui.